O mago da beira do campo

Normalmente, quando nos remetemos ao apelido “Mago” no futebol, pensamos logo em um Meia, o camisa 10 que arma as jogadas e coloca a bola onde quer, mas no caso, iremos falar de um outro tipo de mago, aquele que fica na beira do campo comandando sua equipe.

Primeiramente, deixe-me explicar porquê “roubei” o apelido de grandes meias do futebol e dei de presente a um técnico. Poderia facilmente defini-lo como mágico, porém, referindo-se a Jair Ventura, a palavra mago é mais específica. Mago é aquele que é especialista no estudo (na sua origem real, dos astros), assim como o técnico alvinegro, que chega a trocar suas férias por cursos de aperfeiçoamento.

Bom, ainda não nos acostumamos de fato com a nova safra de técnicos de futebol que vem surgindo no Brasil, talvez, isso seja um possível argumento para definir o medo ou receio ao tratarmos Jair Ventura do Botafogo como um dos melhores técnicos do país. Não vejo o “pouco tempo” na profissão, como desculpa para tal medo, até porque, pegar um time em último lugar do disputadíssimo Campeonato Brasileiro, e levá-lo a Libertadores não é pra qualquer um, mas a questão principal, é como Jair tornou um provável rebaixado a um dos times mais competitivos​ da América, fora o mais intrigante, com muito menos orçamento e jogadores de peso no elenco que os outros clubes.

Jair Ventura. Foto: Vitor Silva/SSPress/Botafogo.

Muito presente nos clubes europeus, o profissionalismo acima de tudo é uma das coisas mais importantes, agregando um valor enorme na moral do atleta com o clube e até mesmo na evolução desse atleta, no Botafogo em sua atual gestão, isso é visto como preferência até na hora da contratação de um reforço. Tratar de comandar uma equipe não só dentro de campo, mas também nos bastidores, não é uma tarefa fácil, requer experiência e/ou moral com seus jogadores. Quando Jair Ventura assumiu o Botafogo, isso parecia inimaginável, como um auxiliar técnico de 37 anos (mesma idade de alguns jogadores) recém promovido controlaria uma equipe de futebol? Para ele foi fácil, o jovem treinador simplesmente fala a mesma língua que os jogadores. Essa ideia da diretoria, também corre nas veias de Jair, o treinador não aceita falta da profissionalismo, e quando vê que algum jogador pode fazer algum mal para o grupo, logo o afasta, como foi o caso do atacante Sassá.

Se já percebemos que Jair é um cara que bate de frente e tem personalidade forte, obviamente ele também tem seus conceitos, sendo o seu preferido e que faz questão de dizer em suas entrevistas coletivas,  a Meritocracia.

Meritocracia. Eles (jogadores) sabem que, quando estiverem no melhor momento, vão jogar. – Jair Ventura.

Nada que ele diga em entrevista será visto de forma diferente na hora do jogo ou até mesmo nos treinamentos, o comandante alvinegro cumpre com suas palavras e dá oportunidades a todos. De certa forma, Jair chega a ousar com sua meritocracia, usarei de exemplo, dois casos, primeiro, o caso do atacante Guilherme, que ganhou a oportunidade de jogar como titular na Copa do Brasil onde alguns jogadores foram poupados, foi bem (marcou 2 gols e foi o melhor em campo) e acabou sendo titular no jogo seguinte pela Libertadores. E para quem acha que é pouco, o zagueiro Marcelo subiu para os profissionais e logo foi titular no Campeonato Carioca onde o Botafogo também atuou com os reservas, fez gol, atuou bem e também foi titular na Libertadores (Logo na estreia).

Existem casos de treinadores que separam 13, 14 jogadores e “vamos com esses aqui”. Eu trato todos iguais (…).  Agora, eu fui para o jogo com o Santos com nove meninos da base. E se eles não estivessem prontos?” – Jair Ventura.

Jair Ventura com suas anotações. Foto: Vitor Silva/SSPress/Botafogo.

Outra característica presente em Jair Ventura, é a ousadia, muitas vezes por conta própria e outras não. No ano passado, o técnico já mostrou logo de cara que é ousado, em alguns jogos, colocou um meia na lateral esquerda, um lateral esquerdo e outro direito no meio e assim por diante. Mais presente esse ano por conta do grande número de competições disputadas, as lesões atrapalharam muito a vida de Jair, que fez com que, para quem não é botafoguense, nem percebesse que o clube quase não jogou com o time titular completo esse ano. Só como exemplo, podemos usar a lateral direita do clube, que desde o ano passado, perdeu o até então melhor lateral do Brasileirão, Luis Ricardo por uma lesão séria, porém, logo foi suprido muito bem por Alemão, contratado na época, mas que não renovou, com isso, Jonas chegou esse ano e logo sofreu uma lesão também séria. O Botafogo se viu obrigado a usar a base, colocando o jovem Marcinho pra jogar, mas novamente, outra lesão. Encurralado, Jair primeiramente pôs o zagueiro Marcelo improvisado na posição e depois Emerson Santos, mais acostumado. A experiência deu certo, mas agora o clube já conta com Arnaldo, que atua originalmente da posição. Assim como na lateral, as outras posições também obrigam Jair a mexer e não descansar um segundo a mente, tendo que se contentar também com a falta de reforços pelo curto orçamento do clube.

De rivais a times de outros estados, claro que as provocações continuam, mas o reconhecimento pelo trabalho de Jair e o momento do Botafogo é claro. O time está nas oitavas de finais da Libertadores, quartas de finais da Copa do Brasil, e por enquanto, muito tranquilo no Brasileirão. O que aumenta esse reconhecimento, é o trabalho da diretoria, que com muito pouco, faz muito, conseguindo reduzir todas as dívidas enormes deixadas pela antiga gestão, e não contratando grandes reforços, mas sim jogadores que se encaixam na filosofia de jogo de Jair Ventura, e aumentem a união do grupo que se mostra muito forte.

Outra coisa que impressiona, é a raça do time do Botafogo, que como diz o próprio Jair, está sempre entrando a 110% em campo, sem abrir mão de nenhuma competição.

– A gente não tem o luxo de escolher competição. A gente viu o Palmeiras ser campeão da Copa do Brasil e ser rebaixado, com o Felipão. A gente não pode abdicar do Brasileiro agora, que a gente vai pagar um preço lá na frente. Quando a gente conseguiu a classificação (Libertadores), a gente só tinha o Campeonato Brasileiro. Mas agora? Eu vou abrir mão da competição mais importante para a gente, que é a Libertadores? Tem a Copa do Brasil nas quartas de final? A gente vai com tudo até onde a gente conseguir. A gente sabe que vai chegar o preço, com as lesões, com os desfalques que vem tendo que ter… É 110%. Primeiro você tem que deixar o grupo homogêneo, tem que trabalhar com todos, você não sabe quando você vai precisar.

Jair Ventura, O mago na beira do campo. Foto: Vitor Silva/SSPress/Botafogo.

De fato, Jair é um grande personagem no futebol Brasileiro e, talvez, seja o principal destaque do Botafogo, deixando nomes de jogadores para trás, pois como ele próprio diz, não tem um jogador em especial, e sim um grupo, uma família, que é o mais importante. A maturidade alcançada pelo treinador é algo que surpreende e faz com que a cada dia o Botafogo suba de patamar, contagiando a torcida que cada vez mais presente bate recordes nos estádios e também fora deles. O momento é mágico, e guiado por um Mago, o Botafogo trilha seus caminhos no ano de 2017.

Daniel Dutra
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Daniel Dutra

Carioca, apaixonado pelo Brasil, mas que não esconde seu encanto pelo futebol internacional. Foi jogando bola que me apaixonei pelo futebol, e vendo o Milan jogar que comecei a acompanhar. Espero um dia poder ser Jornalista.
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